Hippie chic, Sofisticação Rústica, Bahia tem tudo a ver com Sudeste Asiático

No princípio eram os índios pataxós. Daí vieram os jesuítas, no século XVI, construíram um arraial em cima do morro: casinhas simples enfileiradas de um lado e do outro, uma igrejinha branca na beira da falésia, de costas para o mar.

Séculos depois, novos descobridores — hippies, porra-loucas, argentinos desbundados, europeus embevecidos, paulistas bem sucedidos que resolveram largar tudo e morar no mato — foram se instalando por ali e contribuindo com novas bossas.

As casinhas do arraial (conhecido por Quadrado) ganharam tons italianados, ocres, terracotas, convivendo com cores quentes tropicais. Um espírito balinês baixou por aqui, fazendo aparecer casas e pousadas com poucas paredes, um mínimo de vidros e muitos avarandados perfeitamente integrados a vegetação exuberante da região.

O Quadrado dos jesuítas ainda é o centro vital da vila — onde os nativos jogam futebol (às vezes contra argentinos de passagem) e os visitantes tomam cerveja à sombra de castanheiras e vêem a vida passar. Mas Trancoso não é mais um segredo — o que incomoda muitos de seus descobridores, que em protesto resolveram voltar à civilização ou migrar para o Espelho ou Caraíva.

Mesmo invadida diariamente por ônibus de excursionistas de Porto Seguro, e sempre superlotada na época de Natal e Réveillon, Trancoso conserva um charme único — resultado de sua herança histórica ainda viva, de suas belezas naturais, da simpatia dos nativos e do bom gosto das pessoas que vieram se estabelecer aqui.

A nova estrada, que liga Trancoso a Porto Seguro pelo interior (sem acompanhar a costa), facilitou a chegada das excursões, das cadeiras de plástico e das barracas estilão semi-Porto Seguro (já são duas: uma na Praia dos Nativos, outra na Praia dos Coqueiros).

De todo modo, fora da área da muvuca’— e à noite — você percebe que Trancoso continua especial. Tipo quando você caminha de manhã cedo pela praia deserta. Ou quando você toma uma cerveja ao cair da tarde, no Quadrado, sob a copa de uma amendoeira. Quando você janta uni camarão tailandês no Capim Santo. E quando, antes de dormir, você sai para procurar vaga-lumes atrás da igreja, ao som das ondas estourando lá embaixo ao pé da falésia.